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ANTES QUE EU MORRA

Meu nome é Bernardo Genuss e estou morto.
Sim, se alguém estiver lendo isto agora, não estou mais aqui.
O advogado que contratei teve recomendações expressas para só enviar para a editora sobrescrito ou pen drive, ignoro, com estes originais com meu atestado de óbito em anexo.
Dr. Almeida Bastos é um renomado causídico. O que me assegurou que não seria importunado em vida por conta desta publicação foi mesmo que seus honorários só seriam sacados com a assinatura do editor, quando — e se — isto chegar às livrarias.
Não sou personagem da história que se segue, vou procurar ser o mais breve possível para esclarecer apenas a minha parte nela, que é a de torná-la pública, por vias transversas.
Mas é inevitável revelar as circunstâncias em que me envolvi nesta empreitada.
Sou, digo, fui psicanalista dos 24 anos até a data que desconheço da minha morte. Da última vez que reli esta apresentação, tinha 64 anos. Passei um pouco disso, porque reviso este material a cada aniversário, e acabo de fazê-lo. Aniversário e leitura.
Não passei com louvor foi no meu check-up anual, o exame do líquido sinovial apresentou taxas altíssimas de ácido úrico, indício fortemente favorável à consolidação deste lançamento editorial.
Minha formação — minhas deformações —, onde cliniquei, minha vida privada não vêm ao caso.
Fui o que se chama de um homem reservado, quase misantropo. Não tenho argumento para discordar, nem considero depreciativo. Vejo até como elogio.
Tecnicamente vivi no consultório, um cômodo de minha moradia.
Pesquisa sobre meu nome passará em branco. Já fiz esse teste e comemorei.
Sem parentes nem amigos, dediquei minha existência a saber da dos outros.
O fato é que, durante cerca de um ano, surpreendentemente sem uma falta, atendi o protagonista de Antes que eu morra (título por ele sugerido, espero que seja mantido).
Foi a primeira frase que usou para me convencer a pegar o caso nas condições em que queria. Para ser mais preciso, ele falou em “rápido, antes que eu morra”.
Devia ter um peso importante para ele, esta sentença vai reaparecer na narrativa. Acabei implicando com o “rápido”. Antes que eu morra fica mais enfático e, acima de tudo, mais curto. Passa até mais pressa.
Li uma vez um escritor explicando que, sempre que empaca numa palavra e fica sem saber como substituí-la, o melhor é simplesmente eliminá-la. Geralmente não faz falta.
Quando ele proferiu a frase, não entendi como um risco imediato (afinal, todos podemos morrer de alguma forma a qualquer instante).
Com o tempo, entendi que havia efetivamente uma tensão permanente e, diria, justificada.
Na nossa primeira entrevista, foi ele quem estabeleceu as regras do nosso contrato.
Tendo passado por uma situação fora do comum em sua vida, queria relatá-la a uma pessoa com capacidade de escuta que não interferisse na narração. Ao contrário, que o instigasse a ir o mais fundo possível, sem amarras.
Trouxe um gravador digital e um pacote de chips. Foi necessário comprar mais.
Às terças-feiras, eu apenas ouviria, podendo pontuar com uma ou outra observação para estimular a conversa. Nada de juízo de valor. Não foi difícil, é o que faço a maior parte do tempo. Às quintas-feiras, ele também gravaria, mas eu poderia desempenhar com profundidade meu ofício, dentro dos padrões aceitos pela maioria absoluta das dezenas de entidades que se propõem a disciplinar o que faço há décadas, sem ter convicção de que funcione.
Ou melhor, sabendo que, na maioria dos casos, não há chance de funcionar tão logo o sujeito cruze a minha porta.
Entrando ou saindo.
Aceitei.
Ele acrescentou, então, que não usaria nome real, nem diria seu nome, a despeito de a história ser verídica. Optei por nem sequer usar um apelido, como se faz em tratados psicanalíticos.
Não fez falta.
Para mim também foi indiferente, já que nunca chequei identidade de paciente algum e só recebo em dinheiro e sem recibo. Era a prática.
Achei que seria interessante e fiquei curioso. Cobrei o preço máximo da minha tabela, e começamos na semana seguinte.
Repito que não investiguei (para os terapeutas interessa apenas o que nos dizem na clínica), no entanto, foi impossível não achar coincidências de fatos, aqui e ali, no noticiário, relatados de outro modo, com nomes que não coincidiam com os que ele usara. Pode ter trocado ou é/foi coincidência.
Digo, nas reportagens sobre política, que havia anos não me interessavam minimamente.
Nas páginas policiais, cada vez mais próximas das dedicadas aos Três Poderes, rigorosamente, nada. Polícia, costumo acompanhar, por interesse profissional. O passional sempre bate ponto aqui.
Se me perguntassem, acho que tudo, praticamente tudo, ocorreu como me contou.
É crível.
Nem de longe, vou enfatizar, sou coautor.
Limitei-me a transcrever as falas, mantendo até as digressões que nada têm com a história central propriamente dita.
Ninguém caminha em linha reta, meu interesse está mais em desvendar o ator do que em entender a cena.

 

* * *

 

OUTRO CAPÍTULO

Onde parei? Sim, para avaliar o resultado, a consequência de 1,6 grama de puro lítio no meu organismo, segunda à tarde fui parar numa clínica de diagnóstico por imagem num edifício no centro da cidade.
Boas notícias: expeli as baterias pelo método normal, exames de sangue nos conformes, nenhuma sequela aparente, beber muita água. Passar bem. Mil e quinhentos paus, sem convênio. Meu estômago voltou a incomodar, ladrões.
Dentro do elevador, já descendo, percebi que havia deixado o celular para trás. Não ando mesmo ligado. Como pode, estava em cima do envelopão com todos os meus exames!
A clínica fica no 15º, saquei o esquecimento no 10º. Apertei no nove, para ganhar tempo, mas nada. Oitavo, nem piscou.
Resolveu parar no 5º. Então vamos finalmente subir, pensei, e apertei no maldito 15º.
Passou direto.
A partir do 16º começou a parar de andar em andar.
As portas ofereciam passagem, fechando-se em seguida num estúpido ritual meio aflitivo.
Como as vassouras autistas do Aprendiz de feiticeiro, mas com musiquinha de elevador.
Elevador existe desde Roma, é um meio de locomoção seguríssimo, quase não há registro de acidente. Em comparação, a bicicleta é uma máquina de genocídio a tração humana.
O princípio é o mesmo desde que foi bolado pelo romano Vitruvius (I a.C.), uma plataforma elevada dentro de uma cabine vertical. E estamos conversados.
Há 150 anos, as primeiras inovações significativas: contrapeso por meio de cabos e polias, freios de emergência e sensores para seleção automática dos andares, e para impedir o fechamento da porta quando há pessoas no meio do caminho.
Mas o grande salto (!) foi dado por Elisha Graves Otis, em 1852, com um dispositivo de segurança que evita que o cabo de suspensão arrebente. Ele impressionou multidões ao ordenar que cortassem com um machado a única corda que segurava a plataforma num andar alto do prédio onde se encontrava.
O elevador desceu apenas algumas polegadas, mas parou em seguida. Revolucionou toda a indústria.
Como te disse, por conta do meu círculo de trabalho, eu sou obrigado a saber alguma coisa sobre muita coisa. Mas esta quem me ensinou foi o velho da vila, entre muitos outros lances.
Meu incômodo no transporte vertical são as plaquinhas alertando para a capacidade máxima de 560 quilos, que seriam equivalentes a oito pessoas. Que pesquisa é essa que decidiu que um exemplar da nossa espécie pesa, em média, setenta quilos? Vai se ferrar, estou fora. Do peso.
Bom, foi uma comoção nacional, tempos depois, quando o veterano de guerra, Dwight Truman, condecorado por heroísmo em campo de batalha porque se esgueirou em terreno minado para salvar um companheiro, foi decepado na altura do peito, ao tentar sair de um Otis parado entre dois andares de um edifício, justamente em Halifax, cidade natal do fabricante. Quando estava ultrapassando o vão, o elevador movimentou-se. Já viu? Aconselhável não ver.
O cidadão escapa de dezenas de Schrapnellmine alemãs (apelidadas pelos soldados aliados de Bouncing Betty e Jumping Jack — que deu em Flash it’s a gas, gas, gas!) para morrer esmagado entre as seções de vestuário masculino e artigos esportivos de uma Sears da vida. Foda.
Essa tragédia originou um dos maiores clássicos do cancioneiro americano, Mr. Otis Regrets, do genial Cole Porter, eternizado nas vozes de Nat King Cole, Edith Piaf, José Feliciano, Marlene Dietrich e Ella Fitzgerald, para citar apenas alguns dos grandes.
Bom, no Brasil tem acontecido muito acidente com elevador, mas sem vítima fatal.
Teve a irmã do Glauber, mas ele vivia denunciando que foi um atentado. Sem câmera na mão, com minhoca na cabeça.
Who knows?
Estou confabulando aqui, mas, na hora, medo não pensa. Instala-se sem consultas, sem pedir licença.
Fiquei apavorado com o risco de um enguiço, só me faltava ficar preso sozinho dentro da cabine, em fim de expediente, numa sexta.
Vão me encontrar morto de fome, de sede, de enfarte, sem ar, borrado, na segunda-feira.
Achei cauteloso saltar, assim que desse.
Pulei de novo no 22º para pegar o outro carro, não é assim que se fala?
Hoje sei que não deveria ter feito isso. Sei lá...
Tão logo me virei na direção do outro elevador, ouvi o barulho típico de um tronco caído no fundo do corredor.
Nunca ouvira antes a queda de um corpo. Mas é um barulho que logo você associa à queda de um corpo.
Na verdade, são dois estrondos secos sequenciais: um mais grave, do quadril batendo no chão, seguido de um mais oco, do choque da cabeça no piso.

 

* * *

 

OUTRO CAPÍTULO

Não obstante toda essa piração na batatinha, eu continuo achando que sou um sujeito dentro da normalidade possível no mundo de hoje. Entrei numa grande enrascada, mas também não me importa.
Tive um acidente de percurso, com desdobramentos meio que inevitáveis.
Foi o elemento deflagrador, por isso estou aqui.
Ou não.
Com todo respeito, estou me lixando. Nada que não pudesse resolver, me virar sozinho.
Assim como deflagrou, para zerar a conta, talvez bastasse um freio de arrumação, quando o motorista do coletivo breca abruptamente só para deslocar os passageiros para a frente e abrir espaço na lata de sardinha.
Quem sabe a grande viagem que estou planejando?
Ou muita meditação transcendental — já me matriculei num franchising do Maharishi, o guru dos Beatles. Aquele que arrumou o maior barraco quando tentou pegar no chacra da Mia Farrow. Quando valia a pena.
O folheto, com ilustrações da Turma da Shiva, assegura que vou atravessar o túnel e descobrir meu verdadeiro eu em cinco aulas e 4.444 repetições mântricas de “Jai guru deva, Om”.
Respiração agora é legítima praiana, pranayama, oclusão alternada de narinas, mão na posição hang ten. Sabe? Puxa numa, solta noutra, está explicadinho no Hatha Yoga Pradipika, do Svatmarama. E, na boa, funciona: equilibra as energias sutis e purifi ca as nadhis.
Mr. DJ, solta o Ravi Shankar aí.
Ah! Preciso te contar: antes do curso, teve uma amostra grátis. Fica numa sala em bairro elegante.
Coalhada de octogenários a jovens adolescentes. Só gente fina, elegante e sincera.
Depois da preleção, vou te poupar dela, o primeiro exercício de meditação.
Sabe que, para minha surpresa, funcionou. Achava impossível baixar a voltagem, foi viajante.
Emendaram com uma sonoterapia à base de cânticos de um CD com pontos de macumba curtos, no mesmo diapasão, entoados por monges tibetanos emasculados na primeira polução noturna. Embarquei de novo, foi desbundante.
Quando iriam iniciar a leitura da saga “O balseiro e as três margens do Bhagirathi”, extraído do Cânone Pali, o Tipitaka — que reúne os relatos de Buda (que escreveu nadica) —, achei que era um pouco demais. Quero um pouco de paz, não vou fazer vestibular para Madre Teresa de Calcutá. Qual é?
Resolvi partir, ainda tomado pelos efl úvios do incenso de Massala Satya Agharbatti, feito à mão por bruxos neopagãos da grife Wicca.
Entre mim e a porta, deitada sobre o colchonete com vários tons de bege e atravessada, estava à frente uma linda moça, jovem e vestida estilo casual chique. Essa pintinha no cantinho do queixo... covinhas!
Um obstáculo com óculos vintage, com aros, que acetato?, confeccionados com legítimo casco de tartaruga-de-pente, do Oceano Índico, artesanato modelo de Legendre manchado escuro, da tradicional Maison Bonnet, que funciona no sul de Paris desde os anos trinta. São caríssimos, proibitivos, deve ter herdado da avó. Ainda bem, dão um irresistível ar de intelectual. Linda. Mais do que uma patricinha, que bastava, tem consistência imaterial. Uma aparente descolada, com cada peça de roupa e acessórios mais que estudados. Não é a beleza, por assim dizer, nem uma boa conversa, necessariamente. É só it.
Exímia naquele frenético movimento de mãos para enrolar em coque os seus longos cabelos, que se desarrumarão em seguida. Movimento também falsamente despretensioso, mecânico, abrupto, furioso, até viril, como um lençol de shantung puxado grosseiramente, escortinando suavidade, ternura e encanto. Um gesto Pina Bausch Bikram de fazer.
O sufi ciente para uma fugidia visão da sua nuca, da sua penugem. Uma gracinha.
Para enfrentar as correntes do gélido condicionador, como a Virgem Maria de pés descalços e promíscuos e ventre invisível da Gala na Madona de Port Lligat, ela está diáfana, envolta numa fi na pashmina rajada de pelo de pescoço de cabra changthang. Solas encardidas na medida dos oito segundos do andar de Mia Wallace, presença de Anita.
Nesta distância, os fl aps do ar propagavam na minha direção sua até então sutil lavanda inglesa. Ou seria de alfazema do Mediterrâneo? Não sei bem o que era, e era bom, o que sei é que ela não lança seu perfume a esmo.
Oferece-o apenas a quem chega bem, muito próximo. Ao alcance de um toque. Assim eu estava. Bem na fronteira entre três dos cinco sentidos, com meu ser clamando por pelo menos mais um. Às favas com a audição, que já nem presta.
Inspiro. E parei diante dela imaginando que se levantaria, ao menos recolheria as pernas para a minha passagem.
Que nada. O que mexe é um olhar entreaberto e levemente estrábico. Que seduz porque, mais do que se mostrar, deixa algo oculto. Olhos não paralelos, oblíquos, desparagonados na origem só que convergentes no alvo difuso, fechando o foco para nos desvendar por dentro. A mim e meus desejos.
Ela pergunta sonolenta, em preguiça lânguida: “Você consegue passar por cima de mim?” Um murmúrio dengoso, ajeitando-se debaixo do manto, deixando ir, logo acima de um esforçado botão de madrepérola, um generoso decote. No encontro dos dois seios volumosos e firmes, aí, sim, o portal para o além da contemplação. Do vagar letárgico, nublado e entorpecido faz-se um feixe de luz com fagulhas cintilantes formando um clarão.
Sua pele viçosa não tem função orgânica de revestimento. Saborosa cor de sapoti em lisura de caqui. Foi feita para ser lambida. Não precisaria penetrar, me contentaria em ficar lambendo em alfa seu ser para todo o sempre. Dos seus favos, meu bálsamo lenitivo.
Ecoa no ambiente “om namah kundalini” , exatamente os fonemas do sânscrito que mexem com os meridianos do sistema gustativo, aguçando o paladar.
O cuspe brota na boca, gotejam as axilas.
“Por cima de mim?” Por cima de você. Por baixo de você. Por seu lado. Por dentro de você — foi o que me veio e que saiu psicografado num esgar gaguejante “con-si-go”. Num impensado suplo dentido.
Um petisco intransponível que nem desejava ultrapassar.
Quero a moça manhosa de manteau de lã macia como minha duradoura hospedeira. Para me abrigar ali, em plenitude, na quarta consciência.
Nem sono, nem vigília ou sonho. Aquela instância aonde de modo algum chegamos e de onde não queremos voltar.
Tive que sublimar o desejo de mergulhar feito um Spitfire, um kamikaze doidivanas arremetendo por suas delícias. Uma iron butterfl y in-a-gadda-da-vida, eta, zoeira, I mean, in the garden of Eden. Se, ao menos, minha aprazível xintoísta fosse marsupial, eu teria onde me acalentar.
Segui na rota de escape.
Abri minhas veredas, Olódùmarè.
E avancei, passando o pé direito, para dar algum equilíbrio, base destra, seguido do esquerdo, num passo claudicante, o mais rápido possível.
Não o sufi ciente para impedir que eu ficasse sobre a formosa, desconhecida, durante fração de segundo. Que pareceu interminável, no topo do Annapurna. Mais, do Himalaia. Pouco, o topo do mundo. A vista fica turva, as pernas bambas, mas o sopão de fluidos dispara a convocação suprema, soa o alarme: os pelos eriçados, a bolsa escrotal se recolhe, enrugada, sinalizando ao meu singelo par de gônadas que poderia ser instado a comparecer ao batente repentinamente.
Alarme falso, mas o chamado sistema Wuppertal já foi acionado. Incontinente, o coração seleciona suas válvulas e desvia o fluxo sanguíneo, aumentando a carga na direção das estruturas tubulares (!) apropriadas. Represa daqui, escoa dacolá, as vias cavernosas se abarrotam e dilatam. O liquefeito toma ares de solidez. Por sua vez, as tresloucadas glândulas pituitárias dão descarga nas vesículas seminais, que automaticamente acionam seus mecanismos para deixar as secreções nos estoques máximos. Melhor prevenir, num difícil equilíbrio para se evitar tanto a escassez quanto a precocidade.
Química, mecânica, hidráulica, eis o milagre da ressurreição: a complexa engrenagem se move lentamente, enfrentando, bravamente, o brim grosso (Hosana, ó Clemente e Misericordioso) da minha calça comprida.
O cântico na colmeia fi ca frenético:
Ham-sah vam... Ham-sah vam... Ham-sah vam...
O som de uma tampura, de onde vem? Com suas cordas de aço dedilhadas por unhas compridas e curvas no seu braço sem trastes (ao contrário da cítara, o que torna a afi nação bem mais intuitiva), extraindo da cabaça de coité de Madurai, sudeste da Índia, um doce zumbido extasiante que sustenta o bordão.
É um adubo orgânico sônico anabolizante para o arroubo.
Antes da queda que se avizinha, lanço-me adiante feito um Bubka dopado, num ímpeto errático por fumaça e hormônios.
Se, no momento em que eu tocasse a maçaneta trabalhada no cobre, ela gritasse “Ei, quer se casar comigo? Ser meu para o resto das nossas vidas?”, eu cairia de joelhos e o discípulo do discípulo de Swami Brahmananda Saraswati poderia iniciar a culto ato contínuo, ali mesmo. Tragam as oferendas! Que se inicie o vagdanam! Procedam com o vivaha! Soem o shofar, inicie-se o Nikah! Moças adornadas com henna; rapazes, joguem os pratos ao chão.
Tolices. Nem tive coragem de girar para trás, acompanhou-me apenas o rubor na face.
Acho que foi por isso que fui direto, cambaleante, matricular-me na secretaria. Vai ver que ela nem estará lá, cursando. Será? Como o mestre repete, todas as respostas estão dentro de nós. Primeiro, há que se fazer a pergunta.
Hare, Hare.